OBJETOS DE DISTINÇÃO: CULTURA MATERIAL ESCOLAR E PRÁTICAS MERITOCRÁTICAS

Vera Lucia Gaspar da Silva, Ana Paula de Souza Kinchescki, Gustavo Rugoni de Sousa

Resumo


O objetivo deste artigo é refletir sobre um conjunto de práticas de distinção desenvolvidas em escolas públicas primárias de Santa Catarina/Brasil, entre os anos de 1950 e 1960 e materialidades que as representam ou a elas se conectam. Nossas análises pautam-se, sobretudo, em discussões em torno da noção de cultura material escolar, considerando-se aqui que a materialidade é um elemento importante a ser contemplado nas investigações que se dedicam a História da Educação. Se a literatura da área já nos oferece material suficiente para situarmos a instituição escolar como espaço e cenário de rituais meritocráticos, localizar e refletir sobre as materialidades que conformam estes rituais ainda é um exercício vigoroso que favorece um aprofundamento da temática na perspectiva histórica e um olhar contemporâneo sobre a escola, reconhecendo na meritocracia um de seus traços. Neste trabalho destacamos a simbologia em torno de assinaturas em dois distintos suportes: o Livro de Honra do Grupo Escolar Manoel Gomes Baltazar e o Livro de Ouro da Caixa Escolar do Grupo Escolar Professora Marta Tavares. São materialidades locais que falam de um projeto de escola quase universal. Dessa forma, discorremos acerca de estratégias acionadas pelas instituições escolares que intentavam reforçar nos alunos, famílias, indústrias e comunidade atitudes e comportamentos considerados merecedores de destaque, o que, indiretamente, contribuía para a legitimação de uma cultura meritocrática por meio da escola.

Palavras-chave


Cultura material escolar; Meritocracia escolar; Escola primária.

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DOI: http://dx.doi.org/10.17564/2316-3828.2018v7n1p83–94


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